A pressão sobre o orçamento das famílias tem colocado as despesas com moradia entre os compromissos mais difíceis de manter em dia. Na Bahia, esse cenário aparece no aumento da inadimplência de aluguel, que chegou a 4,83% em julho, enquanto especialistas alertam que o atraso de outras despesas relacionadas à casa, como a taxa de condomínio, também pode gerar consequências graves para o morador, inclusive a possibilidade de perder o imóvel.
O cenário foi discutido durante o evento Superlógica Next 2026, em São Paulo, acompanhado pelo portal A TARDE. João Baroni, diretor de Produtos da empresa e palestrante da apresentação “Inadimplência zero na gestão de propriedade”, apontou que a inadimplência condominial já supera a registrada entre produtos financeiros para pessoas físicas e destacou como a inflação e os juros elevados têm reduzido a capacidade de pagamento das famílias.
Para Baroni, a inflação e a taxa de juros são dois dos principais fatores que pressionam o orçamento das famílias. Com o aumento das despesas básicas e do custo do crédito, o consumidor passa a precisar escolher quais compromissos serão priorizados quando o dinheiro não é suficiente para pagar todas as contas.
“A inflação é: todo mês você tem que pagar contas de água, de luz, de telefone, quem tem filho tem que pagar escola, paga transporte, paga comida. (…) Toda vez que essas coisas sobem, sobra menos orçamento para fazer outras coisas”, explicou.
O especialista também relacionou o cenário ao custo dos financiamentos. Segundo ele, juros elevados tornam mais caro financiar bens como carros e imóveis, aumentando a pressão sobre o orçamento.
“A taxa de juros, ela também dificulta a vida do orçamento das pessoas, porque, por exemplo, a pessoa quer financiar um carro, fica mais caro, ela quer financiar uma casa, ela quer sair do aluguel, é mais caro financiar uma casa. Então tudo isso pressiona o orçamento das pessoas”, afirmou.
Na comparação com junho, quando o índice de inadimplência de aluguel na Bahia estava em 4,62%, houve alta de 0,21 ponto percentual. Já em relação a julho de 2025, quando a taxa era de 3,93%, o avanço foi de 0,90 ponto percentual. O índice baiano ficou acima da média nacional, de 3,05%, embora tenha permanecido ligeiramente abaixo da média do Nordeste, de 4,88%.
Endividamento e orçamento familiar
Segundo dados apresentados durante o evento, o Brasil chegou a 83,9 milhões de negativados no Serasa, recorde histórico. Também foram registrados 6,3 mil pedidos de recuperação judicial, outro recorde, enquanto a inadimplência dos produtos financeiros para pessoas físicas chegou a 7,6%, segundo o Banco Central.
O diretor de Negócios para Imobiliárias do Grupo Superlógica, Manoel Gonçalves, destacou que o aluguel representa uma parcela significativa do orçamento familiar.
“Há dois gastos na família brasileira que são muito fortes. O primeiro deles é o imóvel, então quem loca o imóvel, 33% em média da renda daquelas pessoas, daquelas famílias, é alocada no imóvel e o segundo maior gasto é alimentação”, afirmou.
A pressão também aparece no mercado de aluguel. Segundo análise da Superlógica, os imóveis residenciais de até R$ 1 mil apresentaram a maior taxa de inadimplência entre as faixas de valor analisadas, chegando a 5,99% em julho. Nos imóveis comerciais nessa mesma faixa, o índice foi ainda maior: 7,27%.
Manoel Gonçalves explica que o valor do aluguel também ajuda a entender por que famílias de determinadas faixas de renda ficam mais vulneráveis a oscilações no orçamento.
“No mercado imobiliário utiliza-se três vezes a renda ao valor do aluguel como renda mínima, ou pelo menos deveria ser a renda mínima necessária para que aquela família tivesse condição de arcar com aquele aluguel. Então, um aluguel de R$ 1.000, família em média ganha R$ 3.000. Então é uma família com fraco poder aquisitivo”, explicou.
Aluguel também acende alerta na Bahia
A alta registrada na Bahia ocorre após duas quedas consecutivas do índice nos meses anteriores. Segundo Gonçalves, ainda é cedo para determinar uma tendência de piora, mas a evolução merece acompanhamento.
“Ainda é cedo para determinar uma tendência de piora, mas é importante seguir de olho nas projeções de inflação e nas taxas de juros, fatores que influenciam diretamente a estabilidade financeira das famílias e podem impactar a capacidade de pagamento dos aluguéis”, avalia.
Para o executivo, entretanto, a diferença entre os índices regionais não pode ser explicada apenas pela situação econômica geral. Segundo ele, características do mercado imobiliário e o perfil das famílias também interferem nos resultados.
“Agora, a macroeconomia desfavorece o Norte e o Nordeste. Então são pessoas que, além de ter menor PIB per capita, ainda há uma grande utilização dos bolsos. A gente tem mais pessoas locando imóvel de R$ 1.000 a R$ 2.000 nessa região”, afirmou.
Segundo Gonçalves, isso significa que famílias com menor margem financeira podem ser mais afetadas por pequenas alterações nos gastos mensais.
“Essas famílias aqui são menos estruturadas financeiramente e qualquer desvio que ele tem nos custos mensais me faz gerar inadimplência”, explicou.
No Nordeste, os imóveis comerciais apresentaram a maior taxa de inadimplência em julho, de 7,18%. As casas registraram 5,59%, enquanto os apartamentos ficaram em 3,44%. Apesar de liderar o ranking entre as regiões, o Nordeste teve queda no índice, passando de 5,15% em junho para 4,88% em julho. A média nacional também recuou e fechou o mês em 3,05%.
Falta de informação pode agravar problema
Baroni também chamou atenção para um fator que pode contribuir para o atraso: a falta de conhecimento sobre as consequências de deixar de pagar a taxa condominial.
“A maior parte das pessoas não sabe que deixar de pagar o condomínio pode acarretar ela perder o imóvel”, disse.
Segundo ele, a inadimplência condominial pode superar a de bancos porque, diante do orçamento apertado, o consumidor pode escolher quitar primeiro outras dívidas.
“Ela prefere pagar o banco hoje do que pagar o condomínio”, afirmou.
Dívida pode levar à perda do imóvel
Baroni explicou que, no modelo adotado pela Superlógica, a empresa busca inicialmente uma negociação amigável. Segundo ele, são aproximadamente seis meses de tentativa de acordo antes da adoção de medidas judiciais.
“Normalmente a gente espera, a gente tenta fazer uma negociação que a gente chama de amigável durante seis meses. Depois dos seis meses a gente vai entrar com o processo judicial”, disse.
Nesse período, segundo o especialista, a empresa pode continuar garantindo o pagamento do condomínio enquanto tenta negociar com o morador.
Após o período de negociação, o caso pode seguir para a Justiça. O tempo de tramitação varia conforme o Estado e a estrutura do Judiciário local.
Baroni ressaltou, porém, que a perda do imóvel não ocorre de forma imediata e que existem oportunidades para renegociação antes de chegar a esse estágio.
“Até que chegar no ponto de perder o imóvel, a pessoa vai ter muita oportunidade de renegociar”, afirmou.
A recomendação, segundo ele, é que o morador procure o condomínio ou a empresa responsável pela cobrança assim que perceber que não conseguirá manter os pagamentos em dia.
“A dica que eu dou é, sente com a empresa, sente com o condomínio, tenta renegociar a dívida, tenta fazer um acordo que seja bom para você para você não perder o imóvel”, concluiu.
*Repórter viajou para São Paulo a convite da Superlógica para cobertura do Superlógica Next 2026.
FONTE: A TARDE


