Infecções persistentes causadas por alguns vírus e bactérias estão relacionadas a cerca de 10% dos casos de câncer. Esses agentes podem contribuir para o desenvolvimento de tumores por diferentes mecanismos, como inflamação crônica, enfraquecimento da resposta imunológica e interferência nos mecanismos que controlam o crescimento das células. Entre os principais agentes infecciosos associados ao câncer estão o HPV (papilomavírus humano), o vírus Epstein-Barr, os vírus das hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori.
A prevenção é possível em parte desses casos. Existem vacinas capazes de evitar infecções pelo HPV e pelo vírus da hepatite B, dois agentes diretamente relacionados a diferentes tipos de câncer. Os imunizantes estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). “Esses imunizantes são seguros, altamente eficazes e fazem parte do Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS)”, explica a oncologista especializada em câncer ginecológico Letícia Leis, da Oncologia D’Or de São Paulo.
HPV está ligado a vários tipos de câncer
O câncer do colo do útero é a principal doença oncológica associada ao HPV. O vírus também está relacionado a tumores do canal anal, vulva, vagina, pênis e orofaringe, região que inclui a base da língua, as amígdalas e a parte posterior da garganta. Existem mais de 200 tipos de HPV, que podem ser classificados entre baixo e alto risco. Os tipos de baixo risco raramente provocam câncer, mas podem causar verrugas nos órgãos genitais, no ânus, na boca e na garganta.
Entre os 12 tipos considerados de alto risco, os HPV 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero. Praticamente todos os casos desse tipo de câncer estão relacionados ao HPV. Para 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 19.310 novos casos no Brasil.
Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer do colo do útero é o terceiro mais incidente entre as mulheres. Nas regiões Norte e Nordeste, ocupa a segunda posição, cenário relacionado, entre outros fatores, às desigualdades no acesso à vacinação, ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento de lesões pré-malignas.
Vacinação contra HPV reduz risco de câncer
O Brasil introduziu a vacina contra o HPV no Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista científica The Lancet Global Health analisou diagnósticos de câncer do colo do útero entre 2019 e 2023 em mulheres de 20 a 24 anos. A pesquisa considerou um total de 60,6 milhões de mulheres-ano e apontou que a vacinação contra o HPV esteve associada a uma redução de 58% na incidência de câncer cervical.
A imunização também foi associada a uma redução de 67% na incidência de NIC 3, alteração nas células do colo do útero que pode evoluir para câncer quando não tratada. Atualmente, o PNI oferece a vacina contra o HPV em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Adolescentes de 15 a 19 anos sem histórico de vacinação podem receber a dose em estratégias de resgate.
O SUS também disponibiliza três doses, até os 45 anos, para pessoas imunodeprimidas, incluindo aquelas que vivem com HIV, receberam transplante ou estão em tratamento oncológico, além de outros grupos prioritários. Na rede privada, a vacina nonavalente é licenciada para pessoas de 9 a 45 anos.
Rastreamento do câncer do colo do útero também mudou
Durante anos, o rastreamento do câncer do colo do útero foi baseado no exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método primário, com implementação progressiva.
A coleta é semelhante à do Papanicolau, mas o novo teste procura diretamente o material genético do HPV. Durante a transição, a citologia continua sendo utilizada. A oncologista Letícia Leis ressalta que o teste não substitui a avaliação ginecológica. “É importante destacar que a coleta não substitui o exame ginecológico, que é realizado para verificar a existência de lesões no colo do útero, na vagina e na vulva. Em caso positivo, uma biópsia poderá ser realizada para ajudar a identificar a origem do problema”, afirma.
O HPV também está relacionado a cânceres de pênis, vagina, vulva, canal anal e orofaringe. Esses tumores costumam ser mais frequentes após os 60 anos. O câncer de orofaringe associado ao HPV ocorre principalmente em homens, enquanto o câncer anal pode afetar pessoas de ambos os sexos, especialmente aquelas imunodeprimidas. Como não há rastreamento de rotina para esses tumores na população geral, sintomas persistentes devem ser investigados.
Hepatite B também pode aumentar o risco de câncer
O vírus da hepatite B (HBV) é outro agente infeccioso associado ao desenvolvimento de tumores. A hepatite B é transmitida principalmente pelo contato com sangue e outros fluidos corporais contaminados. A infecção pode ocorrer por relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas de barbear, escovas de dente ou alicates de unha e por tatuagens ou piercings realizados sem medidas adequadas de segurança.
O vírus também pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto. A infecção crônica pelo HBV pode provocar cirrose e aumentar o risco de carcinoma hepatocelular, inclusive em algumas pessoas que não desenvolveram cirrose. O carcinoma hepatocelular é o tipo mais comum de câncer primário do fígado e responde por entre 75% e 90% dos casos.
A doença é mais frequente entre homens e ocorre principalmente em pessoas mais velhas. Em registros populacionais, a maior proporção dos casos é diagnosticada entre 65 e 74 anos, com idade mediana de 68 anos. Para cada ano do triênio 2026–2028, o INCA estima 12.350 novos casos de câncer de fígado no Brasil, sendo 7.340 em homens e 5.010 em mulheres.
Vacina contra hepatite B está disponível no SUS
A vacinação contra a hepatite B está disponível gratuitamente no SUS para pessoas de todas as idades. As crianças recebem uma dose ao nascer, preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida, seguida de doses aos 2, 4 e 6 meses com a vacina pentavalente. A partir dos 7 anos, quem não tiver completado pelo menos três doses deve iniciar ou completar o esquema com a vacina contra hepatite B, geralmente nos meses zero, um e seis. Não é necessário reiniciar o esquema para quem já recebeu doses anteriormente.
Tratamento depende do estágio do câncer
Quando o carcinoma hepatocelular já está instalado, o tratamento depende principalmente da extensão e das características do tumor, do funcionamento do fígado e das condições clínicas do paciente. Entre as opções estão cirurgia, transplante hepático, ablação — técnica que destrói o tumor por meio de calor ou outros métodos —, tratamentos realizados diretamente nos vasos que irrigam o tumor, radioterapia e terapias sistêmicas.
Nos casos mais avançados, podem ser utilizadas combinações de imunoterapia, medicamentos que bloqueiam a formação de vasos sanguíneos e terapias-alvo em situações específicas. A vacinação contra HPV e hepatite B, portanto, representa uma das estratégias de prevenção de câncer que podem ser adotadas antes mesmo do surgimento da doença.
FONTE: CORREIO24HORAS


