Um fenômeno climático que começa a milhares de quilômetros do Brasil pode chegar à mesa dos consumidores na forma de alimentos mais caros. O El Niño, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, altera o regime de chuvas e as temperaturas e pode afetar desde a produção de café, frutas e verduras até a criação de animais.
O fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027. Modelos analisados por órgãos brasileiros apontam alta probabilidade de que o El Niño alcance intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão, potencializando os efeitos já conhecidos no país.
A cidade tem clima tropical úmido, com variações pequenas entre as estações. Mesmo nos meses mais “frios”, as mínimas raramente ficam abaixo de 20°C. por Divulgação
Segundo a geógrafa e professora da Estácio Débora Rodrigues, um El Niño muito intenso pode trazer seca severa e maior risco de incêndios no Norte e no Nordeste, calor intenso no Sudeste e chuvas mais fortes no Sul. Os impactos não ficam restritos ao clima. “Quando o clima muda, não é apenas a previsão do tempo que muda. Mudam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, a produção no campo e até a rotina das cidades”, explica Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias.
Por que o El Niño pode deixar a comida mais cara?
A primeira parte do impacto acontece no campo. Falta ou excesso de chuva podem reduzir a produção, comprometer a qualidade dos alimentos e aumentar os custos dos produtores, que precisam gastar mais com irrigação, controle de doenças e recuperação das lavouras.
No Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste, a redução das chuvas pode prejudicar culturas que dependem da umidade do solo. No Sul, o cenário pode ser inverso: excesso de chuva, solo encharcado e dificuldade para plantar ou colher. Frutas, verduras e legumes tendem a sentir os efeitos mais rapidamente. Mas a consequência pode se espalhar para grãos, leite e carnes.
Isso acontece porque a produção está interligada. Se milho e soja ficam mais caros, por exemplo, aumenta o custo da ração usada na criação de aves, suínos e bovinos. O resultado pode aparecer posteriormente no preço das carnes, ovos e outros produtos. Algumas projeções divulgadas por instituições financeiras trabalham com cenários de alta de 15% a 20% nos preços dos alimentos mais afetados. Esse percentual, porém, não significa que toda a comida ficará 15% ou 20% mais cara. Trata-se de uma estimativa para os produtos que sofrerem impactos mais fortes caso ocorram perdas relevantes na produção.
“Os alimentos percorrem um longo caminho antes de chegar à nossa mesa. Se a lavoura produz menos, se uma estrada é interrompida pela chuva ou se um rio deixa de ser navegável por causa da seca, toda essa cadeia fica mais cara”, afirma Luana.
Quem ganha menos pode sentir mais
Uma eventual alta dos alimentos não pesa igualmente sobre todas as famílias. Para quem tem renda mais baixa, a alimentação representa uma parcela maior do orçamento. Quando os preços sobem, pode sobrar menos dinheiro para despesas como aluguel, transporte, energia e medicamentos.
“Uma família com mais
recursos
consegue absorver parte da alta ou substituir produtos. Para quem já vive com o orçamento apertado, qualquer aumento pode comprometer o acesso a uma alimentação adequada e pesar ainda mais nas demais despesas essenciais”, alerta a especialista.
O problema também pode chegar às cidades
Os efeitos do El Niño vão além do supermercado. Períodos de seca podem reduzir o nível de rios e reservatórios, afetar o abastecimento de água, prejudicar a geração de energia e aumentar o risco de incêndios. A fumaça das queimadas, por sua vez, piora a qualidade do ar e pode agravar problemas respiratórios. Com a vegetação mais seca, o fogo também tende a se espalhar com maior velocidade.
No Sul, o excesso de chuva pode provocar inundações, enxurradas e deslizamentos. E uma região que passou por um longo período de estiagem também pode enfrentar temporais. Segundo a geógrafa Débora Rodrigues, depois de semanas de tempo seco, o solo pode ficar ressecado, compactado e com menor capacidade de absorver a água.
“Quando uma chuva muito intensa ocorre após um período prolongado de estiagem, grande parte da água escoa pela superfície, favorecendo alagamentos e enxurradas. Nas encostas, a água pode penetrar pelas rachaduras do solo e aumentar sua instabilidade, contribuindo para a ocorrência de deslizamentos”, explica.
O que pode ser feito para reduzir os impactos?
A prevenção envolve governos, empresas e população. O poder público pode monitorar rios e reservatórios, fortalecer a Defesa Civil, apoiar produtores rurais e ampliar ações de prevenção contra incêndios, enchentes e deslizamentos. Empresas e consumidores também podem ajudar com medidas como economia de água, descarte correto de resíduos e cuidado para evitar práticas que possam provocar queimadas.
FONTE: CORREIO24HORAS


